sábado, 26 de outubro de 2013

O não-vivido

Não acompanhei seus primeiros passos na areia molhada. Estava trabalhando, sei lá. Sem muitas opções naquela manhã, o pai acabou levando-o para um programa outdoor. Não testemunhei seus pezinhos tocando o chão nem os dedinhos se encolhendo ao tocarem a areia úmida. Não estava por perto para vê-lo se equilibrar naquela areia movediça e, aos poucos, perder o medo daquele estranho planeta chamado praia. Em pouco tempo, soube depois, adquiriu desenvoltura. Corria, ainda cambaleante, pelo enorme espelho d'água construído pela maré baixa. 

Meu primeiro filho, com este eu entrei no mar. Fui eu quem sentiu pela primeira vez suas perninhas aflitas debaixo d'água procurando algo para pisar e, depois, se entrelaçando com força em meu corpo. Com o meu caçula, não tive esse prazer. 

Lembro que fiquei chateada quando cheguei em casa e soube do passeio. Mas, àquela altura da vida, eu já havia aprendido que onipresença não é para todos. Resignei-me. "O importante é a qualidade do tempo que se gasta com os filhos" ou "você estará presente em tantos outros momentos importantes...". Pensar nessas coisas ajuda, mas não satisfaz, não é suficiente. Nada apaga por completo a lembrança de não ter vivido um momento que não se repetirá. O não-vivido permanece tal como uma carta que se apagou mas que ainda pode ser lida através das marcas deixadas no papel.



Primeira vez de Martin na praia. Momentos registrados pelo papai.










2 comentários:

  1. Que coisa meiga. É aquela coisa: no final a pessoa se arrepende mais do que deixou de fazer, do que pelo que fez.

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