terça-feira, 22 de outubro de 2013

Um olhar sobre o tempo dos trambolhos*



Uma das características da modernidade é a constante busca pelo novo e, por conseguinte, a valorização de toda e qualquer novidade. No âmbito tecnológico, essa “modernização” se traduziu na preservação do corpo através da automação e na otimização do tempo. Como seres modernos, tendemos a valorizar tudo o que é novo, compacto e veloz; tudo aquilo que nos poupa o corpo e tempo. Aqueles objetos que, ao contrário, não figuram como “o que há de mais novo”, que possuem maior massa ou menor velocidade são indesejados, rejeitados, descartados – geralmente, chamamo-lhes “trambolho”. No dicionário, “trambolho” é definido como “peso atado aos pés de animais domésticos para dificultar seu deslocamento”. Trata-se, portanto, de um obstáculo, um empecilho físico, geralmente volumoso, que nos desgasta fisicamente e que nos faz perder tempo. Mas a natureza do trambolho não é absoluta, pois ele só o é em relação a outro objeto que lhe contrasta. Assim, figura como trambolho a carruagem em relação ao automóvel, o fogão à lenha em relação ao fogão a gás, ou a caneta-tinteiro em relação à esferográfica. O trambolho também possui uma faceta histórica: ele foi a tecnologia de ponta de ontem. E a acelerada obsolescência das tecnologias, principalmente das midiáticas, faz com que topemos com mais trambolhos a cada dia.

A essa altura, lembro-me de Walter Benjamin e Marshall McLuhan que, em contextos e épocas diferentes, se ocuparam em refletir sobre como as transformações das tecnologias cotidianas influenciam nossa cognição e performance corporal. Quais as transformações que, por exemplo, o e-mail ou o celular impôs sobre a nossa percepção do espaço e do tempo? Ou, mais propriamente, o que nos oferecem, nesse sentido cognitivo, os trambolhos que coexistem com as atuais e pequenas maravilhas tecnológicas? Há pouco tempo, entrevistando consumidores de disco de vinil, me deparei com esse tipo de questão. Manter ativo no dia-a-dia o conjunto vitrola+caixas+discos significa estar disposto, antes de qualquer coisa, a negociar espaço e, principalmente, tempo. De um modo geral, todo avanço tecnológico traz um desejo de otimização do espaço e do tempo; cada vez que um artefato se atualiza, executamos a mesma atividade com menos esforço e menos gasto de tempo. As novas tecnologias tornam possível realizar cada vez mais tarefas dentro do nosso absoluto e inexorável tempo biológico; elas nos abrem, portanto, janelas temporais, relativizam o tempo. Encontramos, cada vez mais, tempo no tempo e passamos a viver sob os auspícios do “enquanto”.

O estudo da vitrola e do disco de vinil – um verdadeiro trambolho diante do MP3 - me fez construir a ideia de tempo denso. Os trambolhos nos trazem um tempo denso, pois, ao contrário, dos “primos ricos”, eles desaceleram nosso ritmo: sua massa e sua performance “antiquada” não nos permitem aquela justaposição de janelas temporais. Para que um trambolho ocupe espaço e exerça a função a que se dispõe, ele precisa de tempo, do nosso tempo; ele precisa que lhe cedamos tempo. Sua massa exige, por seu volume e, às vezes, por seu material, atenção sobre nosso corpo e nossos gestos. Nossos sentidos, cada vez mais treinados a dar conta de inúmeros estímulos simultâneos, são forçados a fechar o foco e enxergar, mesmo que por um breve momento, apenas aquele objeto e sua performance. Os trambolhos que constantemente se formam e dos quais periodicamente procuramos nos livrar – correspondências de papel, videocassetes, telefones com fio (sim, eles já são trambolhos!), máquinas de escrever – são espécies de “ilhas” de tempo, massas que atraem o tempo e o impedem de correr. Somos obrigados a parar e olhar antes de seguir em frente.

Obviamente, há uma mudança qualitativa. Qualquer mudança no modo como eu utilizo meu corpo, espaço e tempo gerará, por conseguinte, mudanças na forma como eu percebo e imponho significados a esse mesmo corpo, espaço e tempo. Correndo o risco de soar romântica, acredito que existe algo enriquecedor em escrever uma carta, de próprio punho, com letras caprichadas e, talvez, até perfumada, e vê-la sumindo na caixa de correios. E o que dizer da ansiedade gerada por esperar um disco chegar às lojas e do prazer de voltar com ele embaixo do braço? Se pararmos um pouco e refletirmos sobre essas ações, veremos como elas aumentam nossos níveis de ansiedade, angústia e medo; fazem-nos criar novas soluções com maior frequência; obrigam-nos, enfim, (re)aprender a dedicar tempo às coisas. A antropóloga Janice Caiafa trata desse tema por outro viés. Em seu livro Nosso século XXI – Notas sobre arte, técnica e poderes, ela chama a atenção para o nosso presente como sendo a época da “disponibilidade”; uma época na qual os indivíduos são bombardeados por dispositivos que alimentam atitudes auto-indulgentes. Hoje, tudo nos chega “com um click”, tudo é “interativo”. O indivíduo não se depara mais com aquilo que lhe é estranho ou que lhe impõe uma maior dose de trabalho; seu ambiente se torna cada vez mais um espelho, tudo o mais funciona para não lhe contrariar. As novas tecnologias cotidianas buscam o menor nível possível de ruído para quem consome seus produtos e conteúdos. O indivíduo contemporâneo perde a capacidade de lidar com o diferente, com o que lhe contraria, com o inesperado – e isso tudo, de certa forma, o infantiliza, empobrece-lhe a sensibilidade.

A questão não é tecnofóbica: escrevo muito satistoriamente essas palavras em um computador, e, quando aparece alguma urgência e estou no meio da rua, agradeço por ter um telefone dentro da bolsa. Porém, acredito que existem algumas dimensões da nossa vida que o tempo denso dos trambolhos – todos os percalços oferecidos por sua materialidade e performance - nos oferece experiências sensoriais mais ricas e necessárias (pelo menos) ao nosso amadurecimento emocional. Salvem os iPads, mas não há preço que pague o prazer de ir a uma banca, comprar uma revista e correr-lhe nossos olhos e mãos. A vida nos exige praticidade ao mesmo tempo que nos pede o mínimo de cerimônia.

*Texto publicado pela Revista Continente

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